O mestre ensina seu ofício
Fama e Anonimato é uma aula sobre como se fazer bom jornalismo, ministrada por um de seus maiores nomes: Gay Talese.
Existe colecionador para tudo, mas ninguém é capaz de garimpar tesouros escondidos na banalidade da vida como Gay Talese (1932–). Dono de um olhar aguçado e detalhista, o jornalista norte-americano transita com facilidade por mundos distantes e ocultos, tornando-os compreensíveis até mesmo aos mais distraídos. Seu segredo? O dom de transmitir confiança aos entrevistados, que se sentem como se estivessem em um divã sendo ouvidos por um confidente.
Grande parte da obra de Talese é permeada por essa capacidade: em Honra Teu Pai (Honor Thy Father, 1971), ele levou a questão da intimidade às últimas consequências quando se tornou amigo do filho de um dos chefões da máfia italiana — o livro, obviamente, foi um sucesso de vendas. No polêmico A Mulher do Próximo (Thy Neighbor’s Wife, 1981), o escritor adentrou a ousada vida sexual dos casais americanos, confrontando todo o puritanismo da sociedade. Seu grande sucesso, porém, foi o best-seller Reino e Poder (The Kingdom and the Power, 1969), que narra de forma não-convencional a história do The New York Times — jornal no qual trabalhou por 10 anos — ao explorar particularidades de algumas de suas figuras marcantes (conhecidas ou não).
Essa perspectiva singular também é abordada em Fama e Anonimato (Fame and Obscurity, 1970). Lançado no Brasil em 1973 sob o nome Aos Olhos da Multidão, o próprio livro virou objeto de colecionador e alvo de constantes garimpagens: clássico instantâneo, esgotou-se rapidamente nas prateleiras. À época a obra foi distribuída pela editora Expressão e Cultura e, depois de décadas de escassez, ganhou uma nova edição pelo selo Companhia das Letras, em 2004.
As 536 páginas podem assustar, mas são compreensíveis: dividido em três partes, o livro é, na verdade, uma compilação de textos publicados pelo autor durante a primeira metade da década de 1960 na Esquire. A revista tornou-se conhecida por estimular e difundir os valores do Jornalismo Literário — movimento marcado pela subjetividade e riqueza de detalhes, revelando em reportagens um universo geralmente ignorado pela superficialidade do noticiário tradicional. É nesse momento que sai de cena o repórter-técnico, viciado em aspas e regras, para dar lugar ao repórter-escritor, que explora seu lado autoral e deixa qualquer história interessante, como Truman Capote, Tom Wolfe e o próprio Gay Talese.
No decorrer dos cinco capítulos da primeira parte do livro, intitulada Nova York: A Jornada de um Serendipitoso, o jornalista desmitifica a metrópole do consumismo da Times Square, dos acionistas malucos de Wall Street e dos ricos de Upper East Side. Talese, um andarilho nato, traça de forma bastante original um perfil da cidade a partir de alguns personagens esquecidos — mas não menos interessantes — que encontrou pelo caminho, como porteiros de hotéis, lixeiros, motoristas de ônibus, detetive de ladrões de livros e até mesmo pessoas pagas para chorarem em enterros.
Os símbolos de Nova York têm seu protagonismo, mas são apresentados em situações um tanto quanto incomuns: o que acontece com a Quinta Avenida quando o dia acaba? O jornalista, transformando-se numa espécie de investigador, detalha hora a hora da madrugada e, sem pudores, fala dos bêbados jogados nas ruas e das prostitutas e ladrões que tiram proveito deles — nada parecido com a cidade glamourosa dos filmes da Era de Ouro de Hollywood, que estava em seu auge na época dos textos. A escrita de Talese, aliás, é bastante cinematográfica: em certos momentos sua descrição torna-se elegante e sofisticada ao construir uma atmosfera misteriosa, tal qual uma produção noir. Em outros, acompanhamos de longe cada situação, seguindo rastros, pistas e pessoas, como em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), de Alfred Hitchcock.

Essa ambientação também é marcada por sons e sensações reproduzidos com tanta fidelidade que acabamos por nos sentir moradores de Nova York. Tudo está lá: o barulho dos saltos das secretárias de Wall Street, o jazz nos clubes noturnos, as buzinas dos carros, as caixas registradoras e a gritaria natural de uma cidade grande; além do cheiro das pizzarias, peixarias e da fumaça dos ônibus — demonstrando a fluidez e a euforia da metrópole. Assim, a escrita não apenas se transforma na própria cidade, mas também ganha vida e movimento, como se dançasse em um caótico musical da Broadway. São esses pequenos detalhes que trazem realismo à história: pessoas normais fazendo coisas normais; a simplicidade do cotidiano em sua mais pura forma. Nós, os leitores, nos reconhecemos nas peculiaridades dos personagens, em suas manias e hábitos, nos encontros e desencontros, na melancolia e na alegria — tudo isso devido à habilidade do jornalista em captar pensamentos, gestos e olhares, afinal, o silêncio também diz muito.
Mas é no capítulo final — Nova York é uma cidade dos esquecidos — que Talese deixa um pouco de lado a ironia e o humor, presentes em todo o livro, para dar lugar ao sentimentalismo. Usando a opinião de idosos saudosistas sobre a suposta decadência da cidade, ele mostra todas as tragédias, dores, perdas, angústias e catástrofes que a cercam, dando destaque aos marginalizados e ignorados pela sociedade. Aqui, fica evidente a genialidade do escritor: ele capta todo o tipo de emoção, desde as mais ingênuas dos primeiros capítulos à tristeza, nojo e indignação deste último.
Na segunda parte, A ponte, acompanhamos um grupo de operários durante a construção da ponte Verrazano-Narrows. Para isso, o jornalista virou uma espécie de antropólogo, já que chegou a se misturar aos trabalhadores no canteiro de obras, acompanhando-os até no pós-expediente. É muito simbólico que Gay Talese tenha escolhido figuras tão desvalorizadas como protagonistas da história; ele parece estar preocupado em imortalizá-las nas páginas do livro e ressalta sutilmente o fato de não poderem usufruir algumas de suas próprias construções. O autor dá nome a cada trabalhador, apresentando suas características físicas (a pele castigada pelo sol, as cicatrizes e os membros decepados) e psicológicas (o medo da morte, a solidão e o alcoolismo). Toda a rotina de competitividade, piadas internas, erros e acertos se torna mais verdadeira pela sua capacidade em reconstruir de forma realista os diálogos que ouvia, mantendo palavrões, expressões e gírias, além de explicitar sotaques.
É aqui que vemos o lado poético do jornalista brilhar devido ao uso mais frequente de metáforas, como na bela passagem em que compara a ponte a um arco-íris, marcando o fim de um ciclo. Existe também um tímido apelo emocional quando trata do forte laço que os moradores nutriam pelas casas desapropriadas para a construção da ponte, além do companheirismo que os operários sentiam uns pelos outros nos acidentes e fatalidades que os rondavam. Gay Talese cresce quando coloca o lado humano como prioridade em sua narrativa — contrapondo-se quando é mais técnico e, portanto, não cedendo espaço para a imaginação e devaneios.

Embora impressione, o excesso de apuração e detalhismo se torna maçante em alguns momentos do livro, sendo A ponte um exemplo claro: o autor recorre à Engenharia Civil para explicar todo o processo de construção, especificando, inclusive, os pesos, comportamentos e resistências de cada material utilizado. É notável, contudo, a facilidade que Talese tem de tornar fácil algo tão específico e restrito — essa é a tarefa de um jornalista. O fato de fazer muitas conexões com outros eventos e pessoas também contribui para confundir o leitor, mas isso não é algo totalmente negativo: ele recupera o passado e caça os porquês de cada situação, concedendo maior profundidade às histórias.
Já na terceira parte, Excursão ao interior, o escritor mostra que os famosos não são de ferro e muito menos intocáveis; ele os faz se sentir à vontade para partilhar questões pessoais e pensamentos íntimos que dificilmente seriam revelados ao público. Em O perdedor, o jornalista coloca na íntegra um desabafo do pugilista Floyd Patterson sobre a perda e o fracasso; em Peter O’Toole de volta à terrinha, acessamos tão profundamente o inconsciente do ator que Talese parece descrever sua alma. Os onze capítulos tornam-se, portanto, espontâneos por mostrarem facetas pouco conhecidas das celebridades, como fraquezas (vergonha, humilhação e frustração), problemas psicológicos (traumas e transtornos mentais) e a chegada da velhice (doenças, ostracismo e a necessidade de reinvenção).
Apesar de encontrarmos muitas outras preciosidades, é impossível não falar de Frank Sinatra está resfriado, considerada uma das reportagens mais importantes do Jornalismo Literário. Na impossibilidade de entrevistar o cantor, Gay Talese transforma a dificuldade em diferencial quando decide conversar com pessoas de seu círculo social (desde amigos, filhos e empregados até dublê) e observá-lo de longe nos estúdios, sets de filmagem e cassinos de Las Vegas, extraindo muito mais do que respostas vagas de uma entrevista marcada. Dessa forma, ele revela um astro frágil, vulnerável e sensível que luta para não se tornar obsoleto na efervescência cultural dos anos 1960. É espantoso notar que o jornalista consegue decodificar esses e tantos outros sentimentos a partir do olhar do cantor, tornando o texto um retrato doce, respeitoso e cuidadoso de um dos maiores nomes do século XX, sem bajular ou esconder as falhas de sua carreira e vida pessoal.

A edição da Companhia das Letras traz, ainda, dois textos inéditos de Gay Talese: o primeiro, Na ponte, revisita personagens e anotações particulares cerca de quarenta anos depois da publicação sobre a construção da Verrazano-Narrows; o segundo, Como não entrevistar Frank Sinatra, narra o processo de criação da famosa matéria e conta, ainda, com críticas ácidas ao jornalismo atual. Segundo o autor, a profissão se tornou bastante engessada e artificial devido ao uso exacerbado de tecnologia que acaba por afastar o repórter da rua, bem como o fato das fontes serem tratadas como meras emanações de aspas — e não como seres humanos. Quase como um tutor, ele ensina que é mais importante captar a essência do entrevistado do que a exatidão de cada palavra dita. Há ainda um texto de Humberto Werneck intitulado A arte de sujar os sapatos que ressalta a atualidade dos textos de Talese e o coloca como exemplo frente a uma realidade cada vez mais confinada às redações.
Fama e Anonimato revela uma valiosa lição sobre uma profissão cuja alma enfraqueceu-se com o tempo, mas que pode (e deve) ser recuperada. Em uma passagem aparentemente banal, ainda na primeira parte do livro, o escritor investiga sobre a existência de uma segunda Estátua da Liberdade — tão desimportante que nem os próprios moradores do bairro a haviam notado. Um taxista que passava pelo local justifica seu desconhecimento dizendo que ninguém em Nova York tem tempo de olhar para cima. É esse o diferencial de Gay Talese: ele não apenas olha para cima, como olha para baixo e para todos os lados possíveis, de forma minuciosa e atenta, numa eterna busca pelo inesperado. Afinal, de um bom jornalista pode se esperar tudo, menos o óbvio.