A arte de dar voz aos silenciados

Hiroshima une o jornalismo à literatura e provoca reflexões sobre um dos episódios mais violentos e desumanos da 2ª Guerra Mundial.

Diovanna Mores Monte
6 min readMar 18, 2021

Seis de agosto de 1945, oito e quinze da manhã. Uma bomba atômica composta de urânio explode no céu de Hiroshima, uma pacata cidade japonesa de 250 mil habitantes. Cem mil mortos, 100 mil feridos. Estas eram as informações que os norte-americanos possuíam sobre a primeira grande experiência com o emprego de energia atômica em civis — números, dados e estatísticas que não davam a real dimensão do estrago causado pelos EUA. Este cenário mudou no dia 31 de agosto de 1946, quando um jovem jornalista revelou ao mundo o que o governo dos Estados Unidos queria manter oculto: o impacto humano da bomba.

A edição daquela semana da revista The New Yorker foi bastante peculiar, já que, pela primeira vez na história, todo o seu espaço fora dedicado a apenas uma reportagem: Hiroshima, assinada por John Hersey (1914–1993), ganhador do Prêmio Pulitzer pelo romance de guerra A Bell for Adano (1944, sem tradução). A escolha por desastres reais para denunciar, alertar e convidar os leitores a uma reflexão marca grande parte de seu trabalho, como no romance The Wall (1950) e em Algiers Motel Incident (1968) — ambos sem tradução. O primeiro trata sobre o Gueto de Varsóvia estabelecido pela Alemanha Nazista durante o Holocausto; já o segundo, sobre a violência policial durante protestos no verão de 1967 em Detroit, Michigan. Nestas obras, o autor deixa de lado a narrativa mais factual e objetiva para utilizar elementos do que viria a ser chamado de Jornalismo Literário: a tragédia ganha, agora, a companhia de adjetivos, personagens esquecidos (ou silenciados), enredos e contextualização que não teriam espaço na burocrática mídia tradicional, permitindo, assim, uma produção mais profunda e detalhada.

Ao dar rosto para o desastre de Hiroshima, Hersey espantou e comoveu a sociedade da época, fazendo com que a demanda pela revista crescesse rapidamente, tendo seus 300 mil exemplares esgotados e partes do texto transmitidas em jornais, revistas e rádios de todo o mundo. Com o sucesso, o artigo foi transformado em livro no final de 1946 e imediatamente traduzido para muitas línguas — exceto para o japonês: até 1949, o governo norte-americano proibira a divulgação de qualquer reportagem sobre as consequências dos bombardeamentos na cidade. Já aqui no Brasil, o lançamento se deu em 2002, sob o selo Jornalismo Literário da Companhia das Letras.

A história dos seis sobreviventes (uma viúva, uma secretária, um padre alemão, um reverendo e dois médicos) é contada nessa edição em 176 páginas e dividida em cinco capítulos. Logo de início, os títulos dos quatro primeiros (Um clarão silencioso, O fogo, Investigam-se os detalhes e Flores sobre ruínas) já revelam características primordiais da escrita do autor: ela é lenta, gradativa e passa a sensação de que estamos, junto aos personagens, montando um quebra-cabeças das causas e efeitos da radiação, desde o momento da explosão da bomba, o aparecimento dos primeiros feridos e mortos, as teorias construídas pela população até o trabalho de pesquisa dos cientistas e médicos, que foi minuciosamente descrito por Hersey.

Sua capacidade de prender a atenção do leitor ao construir uma tensão vívida e permanente impede que a obra se torne cansativa, assim como a escolha do jornalista em mesclar os relatos das pessoas, permitindo comparações de suas personalidades e das situações em que cada um se encontra. Apesar disso, é frustrante um relato extremamente empolgante ser cortado para dar início a outro, mas o uso desse artifício não é totalmente negativo: a leitura torna-se mais espontânea, como se fosse uma roda de conversa em que cada um compartilha suas experiências.

As técnicas de investigação jornalística se aliam aos recursos literários criativos de Hersey quando ele detalha, sob um olhar clínico e cuidadoso, o povo de Hiroshima, registrando expressões na língua original, sua cultura e crenças; a cidade em si, com sua vegetação e arquitetura; os instrumentos médicos e científicos utilizados; as partes do corpo humano fraturadas, além de temperaturas, horários e distâncias para criar uma ambientação e familiaridade ao cenário da tragédia. Porém, ao nomear grande parte das pessoas, ruas, bairros e rios, o leitor pode se confundir com o excesso de detalhismo, principalmente pelo fato de a narrativa não ser contínua.

Apesar de sua escrita não ser sentimentalista, ela dói por ser bruta e fria, como um soco no estômago: Hersey não tem medo de chocar e nem tenta esconder a verdade com palavras mais delicadas. Ele relata de forma crua os efeitos da radiação (as queimaduras graves que desprenderam a pele do corpo das pessoas, os olhos derretidos de quem olhava para o céu no momento da explosão, o cheiro ruim dos milhares de cadáveres estirados no chão…), mas, muitas vezes, o autor se perde nessa descrição sanguinária e esquece de explorar melhor sua sensibilidade. Quando baixa a guarda e mostra o lado humano das vítimas, a narrativa cresce e ganha, quase magicamente, um tom de emoção: não há como não se comover com as crianças chorando em busca de suas mães, com o sacrifício dos médicos que trabalharam por quase 20 horas seguidas e com as tentativas falhas de ajudar aqueles que já estavam mais mortos do que vivos.

John Hersey consegue resgatar perspectivas esquecidas pelo jornalismo tradicional, como o aspecto coletivo — importantíssimo para a compreensão da forma como os japoneses lidaram com o atentado, por meio da resiliência e aceitação. Já no plano individual, a precisão do autor ao construir a personalidade e a vida dos seis protagonistas nos permite entender seus dilemas morais, suas reações e emoções (como o desespero, a impotência, a culpa e a tristeza). Esses fatores, aliados à meticulosa construção dos cenários, fazem com que o leitor se sinta na pele e na alma de cada um dos personagens, criando, assim, empatia por eles.

Quarenta anos após a tragédia, o jornalista volta a Hiroshima e acrescenta o capítulo Depois da catástrofe — é aqui que o caráter crítico e de cunho social aparece mais forte. A impressionante e detalhada descrição do desfecho da vida dos seis protagonistas mostra que o terror vivido naquele 6 de agosto de 1945 continuava presente no corpo e na memória daquele povo, desde as doenças crônicas e deformidades físicas aos traumas psicológicos. Esses relatos, brilhantemente mesclados às atualizações de testes com bombas nucleares realizadas no pós-guerra, deixam claro que, apesar de ter tomado ciência do sofrimento e das sequelas do ataque, a memória do mundo começava a falhar, já que esse tipo de prática crescia a cada ano.

O posfácio de Matinas Suzuki Jr. evidencia que Hiroshima segue sendo uma das peças jornalísticas mais relevantes do século XX. Seu resgate numa época de constante descrédito da profissão é bastante pertinente por apresentar uma postura ética e humanizada das vítimas frente a um episódio de violência e censura praticadas, aqui, pelo governo dos EUA. Hersey confirma que o jornalismo cresce quando dá voz àqueles que têm esse direito negado ou desacreditado, e também ao buscar por histórias além dos números “para que a dimensão humana da tragédia não se perca na frieza das estatísticas”. A frase é do jornal O Globo, do dia 10 de maio de 2020, que trazia em sua capa os nomes e histórias de algumas das vítimas da Covid-19, provando que os recursos empregados pelo Novo Jornalismo são tão atuais quanto eram há 75 anos.

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